Mutum

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(Crax fasciolata pinima)

Última chance para o Mutum de Alagoas

Especialistas lutam para salvar o Mutum de Alagoas da extinção

Tentativa de recuperação da espécie depende das últimas 20 aves mantidas em cativeiro. Na natureza, o animal é considerado extinto

Campinas – A única chance de afastar a ameaça de extinção do mutum de Alagoas (Mitu mitu) está na reprodução dos 20 últimos exemplares puros conhecidos, todos mantidos em cativeiro. Ave endêmica da Mata Atlântica de Alagoas, esta espécie de mutum não é encontrada na natureza desde os anos 80, tendo sido praticamente dizimada pela perda de habitat (desmatamento e degradação de fragmentos florestais) e pela caça.

As estratégias emergenciais de conservação foram discutidas por especialistas e criadores científicos, em Maceió, Alagoas, nesta quinta e sexta feira (8 e 9/5), num encontro coordenado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em parceria com o Instituto para a Preservação da Mata Atlântica (IPMA).

“Estamos trabalhando em duas frentes: aumentar significativamente a população de mutuns em cativeiro, com o máximo de variabilidade genética possível, e trabalhar na recuperação das matas de Alagoas e reconexão de fragmentos florestais, para uma futura reintrodução na natureza”, conta Carlos Bianchi, do Ibama. A população conhecida de mutum de Alagoas se divide em dois criadouros científicos, ambos com larga experiência em reproduzir espécies ameaçadas de extinção, localizados em Minas Gerais, um em Poços de Caldas e outro em Contagem. O aumento da população pode contar, ainda, com o reforço de 60 mutuns híbridos, resultantes do cruzamento da espécie de Alagoas com outra, geneticamente próxima, o Mitu tuberosa.

Temperamentais

Pelo menos dez espécies de mutum ocorrem no Brasil. São aves pouco menores do que o peru doméstico, de penas pretas, com algumas variações entre o marrom e o branco na barriga e crista de cores muito vivas, entre o amarelo e o vermelho. Alimentam-se de frutas, folhas, sementes, pequenos roedores e insetos. Passam a maior parte de seus 30 anos de vida no chão, mas sabem voar baixo e costumam se abrigar, dormir e fazer ninhos em galhos de árvores, a uma altura máxima de cinco metros. Os machos é que constroem os ninhos e as fêmeas botam dois ovos a cada postura. Uma vez estabelecidos, os casais são territoriais, ou seja, demarcam áreas onde não permitem o ingresso de outros casais da mesma espécie.

A criação e reprodução de mutuns em cativeiro exige conhecimento e muito cuidado no trato. Tanto o macho como a fêmea são temperamentais e podem matar o parceiro em minutos, se a corte terminar em briga. “Por isso devemos experimentar a inseminação artificial, para conseguir alguns cruzamentos importantes para manter a variabilidade genética”, diz Bianchi. Os casamentos serão planejados por Luís Fábio Silveira, da Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo studbook (gerência de linhagem) da espécie. Os recursos de investimento na reprodução devem sair, em parte, de uma linha de financiamento a ser anunciada pelo Ministério do Meio Ambiente, no final do mês, junto com o lançamento do livro vermelho da fauna ameaçada de extinção.

Usinas “verdes”

Já o trabalho com a manutenção e recuperação do pouco que restou de Mata Atlântica em Alagoas conta com recursos e empenho de pelo menos 32 usinas de cana-de-açúcar, associadas ao IPMA. A organização não governamental trabalha com empresas, há 7 anos, na manutenção e reconexão dos fragmentos florestais. “Cada empresa que se torna nossa sócia deve atender a uma série de exigências, que vão desde a obrigatoriedade de criar uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) até o controle de queimadas, educação ambiental, reflorestamento e coibição da caça, dentro de suas fazendas”, explica Fernando Pinto, do IPMA.

Estão no programa 22 usinas de Alagoas, 4 de Pernambuco, 2 da Paraíba e 2 do Rio Grande do Norte, somando 45 RPPNs, das quais 7 já foram decretadas, 19 estão protocoladas e as outras na fase de delimitação. As RPPNs são decretadas por fazenda, sendo que cada usina pode ter várias destas unidades de conservação. “O setor canavieiro descobriu que investir em conservação ambiental não é tão caro e traz um bom retorno, em termos de imagem, então, várias usinas têm nos procurado espontaneamente para aderir e algumas querem montar centros de visitação”, acrescenta Pinto.

As 45 RPPNs dos canavieiros já somam 13 mil hectares de remanescentes florestais protegidos, em vários estágios de conservação. Além disso, o plantio de mudas nativas chega a cerca de 500 mil por ano, sobretudo em encostas, onde o cultivo de cana foi abandonado. Os investimentos, atualmente, estão mais concentrados em produtividade, com preferência para a mecanização, irrigação e uso de tecnologias avançadas nas áreas planas. As áreas mais acidentadas, abandonadas, estão sobrando para os reflorestamentos, o que é mesmo mais indicado, do ponto de vista ambiental.

Fonte: www.achetudoeregiao.com.br


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